"São as palavras que ficam por dizer que mais nos pesam, prisioneiras no nosso descontentamento, aos gritos dentro da nossa cabeça. Preciso de as libertar, preciso de lavar a alma e de limpar o coração, mesmo que isso signifique pôr uma pedra em cima daquilo que mais amo e desejo. E para me ver livre delas, revelo-me nestas palavras sem pudor, porque já não tenho nada a perder. Os dias continuam a correr devagar; às vezes sinto que te estou a esquecer, outros tenho a certeza que a ferida nunca vai fechar. Às vezes penso que nunca mais serás uma pessoa próxima. Outras vezes, sonho que um dia acordas e escolhes o teu caminho e que esse caminho é aqui, ao meu lado.
Existem outros homens à espera de entrar na minha vida. Nenhum me interessa. Ouço-os falar e lembro-me da tua voz. Observo as mãos deles e são as tuas que vejo.Todos os olhos que me tentam prender se perdem no meu vazio, porque em nenhum vejo os teus olhos.
Tenho muitas saudades tuas. E saudades do tempo em que confiávamos um no outro e sentíamos que estávamos no mesmo barco, porque mesmo longe, queríamos ajudar, proteger e apoiar o outro em tudo, de uma forma incondicional e total, queríamos amar-nos e dar-nos um ao outro. Mas tenho ainda mais saudades de me sentir cheia de amor por ti. Será que não amamos os outros pelo que são, mas pelo que nos fazem sentir? Sempre quis ser a pessoa que fui quando estava contigo, tu sabias, sem saber, exaltar o meu lado melhor, mais profundo, mais elevado, mais optimista. Sentia-me bela, segura, serena e perfeita ao teu lado. Sentia-me completa, e é na plenitude que se pode encontrar a felicidade.
Nunca vemos o amor chegar; só o vemos a ir-se embora. Estou numa estação de comboios, sentada num banco de pau, completamente só. Perdi o teu comboio e não quero apanhar nenhum outro. Está frio. Já não há sonho, já não há dádiva, os dias voltaram a ser cinzentos e tristes. Agora são todos iguais, sempre iguais. Respiro, durmo e como o melhor que posso e sei, e tento esquecer-te. Deixei de falar de ti e de dizer o teu nome, deixei de o desenhar no espelho da casa de banho, quando o vapor inunda todas as superfícies. Em vez disso tenho o coração embaciado de dúvidas e o olhar desfocado pelo absurdo do teu silêncio continuado, o olhar de quem aprende a adaptar-se a uma luz desconhecida, a uma nova realidade.A pouco e pouco, com enorme esforço e nenhuma vontade, tento não pensar mais em ti, refugiando-me na ideia de que é sempre muito mais interessante aquilo que pensamos dos homens que amamos do que eles realmente são na realidade. E talvez um dia o teu coração perca o medo de saltar para fora do peito e descubras finalmente onde pode ser a tua casa."
Margarida Rebelo Pinto